Sei que estás aí em cima a olhar por mim...

Todos os dias pensamos em muitas pessoas… É normal virem ao nosso pensamento um chorrilho de nomes e de caras de pessoas que, por qualquer motivo, ficaram no passado. Colegas de escola, amigos, vizinhos, alguém que encontrávamos todos os anos.
Quando essas caras nos chegam, outra vez, à cabeça, apetece telefonar, encontrar, voltar a ver, conversar, recordar, ver como estão, o que fazem. Apetece reviver tudo outra vez. E era tão bom ter um reencontro desses…
Já passou um ano, mas não parece. Não sei se parece mais pela ausência, ou parece menos por tudo ter acontecido tão rápido, sem aviso nem razão… Mas um ano passou… É verdade, um ano passou…
Já me tinha esquecido porque é que cá tinha vindo parar. Porque havia sequer cá chegado um dia. Este ano passou tão lentamente, consumido pela saudade dos sorrisos, das brincadeiras. As memórias dormiam um sono aconchegante. Pareciam slides aos meus olhos.
Hoje, tenho um mundo em mim. Um mundo que a saudade fez crescer, que a saudade animou e aumentou. Foi a falta desses sorrisos, a profunda saudade de ti que me deu vida e coragem, que me fez amar e entregar-me aos outros.
Admirável saudade que existe, porque se ama sem limites…
Eram 17.56 quando o meu telemóvel tocou. Não sei porquê, mas arrepiei-me (talvez já pressentisse alguma coisa). Tinha uma mensagem, a dizer que tinha havido um acidente. Não percebi nada, mas fiquei aflita, e só não queria estar em casa sozinha.
Nessa noite não dormi, nem na noite seguinte, e nas outras fui dormitando, mas sempre de telemóvel na mão à espera de notícias. E de cada vez que ele tocava eu sobressaltava. Tinha muito medo do que pudesse vir a saber.
Um dia acordei, e vim à janela da cozinha. Eram 7.30h da manhã, e estava Sol. Pela primeira vez naquela semana esbocei um pequeno sorriso. Pensei que fosse um sinal de esperança, mas estava enganada. Era sexta-feira, dia 28 de Outubro de 2004.
Como de costume, preparei-me e fui para a escola. Mas, não sei bem porquê, não consegui tomar o pequeno-almoço. E saí de casa.
Cheguei à escola, e em vez da azáfama normal, notei um ambiente muito mais calmo. Esquisito. Discreto. Pesado. Arrepiei-me mais uma vez, e tive medo a cada passo que dava.
Subi as escadas, olhando sempre à minha volta. De repente, vejo a Fia a correr para mim, e ela disse, por meias palavras, aquilo que eu mais temia ouvir: tinhas-nos deixado nessa noite…
Naquele momento fiquei sem forças, e deixei cair os livros que tinha na mão. Assustei-me com o barulho. Os meus pés ficaram colados ao chão, e eu gelei de repente. Fiquei estática durante dois ou três minutos, e à minha volta tinha apenas silêncio. Não via nem ouvia nada nem ninguém, e a tua imagem não me saía da cabeça. E deixei cair uma lágrima. Depois dessa, muitas mais vieram, e chorei durante uns cinco minutos como nunca havia chorado antes… Depois, seguiram-se os telefonemas pois, mais uma vez não queria estar sozinha. Mas foi a última vez que falei nessa manhã. Não consegui dizer mais nada. Vi a tua mãe, o teu pai, o teu irmão, mas nada conseguia fazer senão chorar com eles. Custou-me tanto… Nunca tive tanta consciência do que era a morte, do que era perder alguém…
A partir daí, todos os dias me lembro de ti, todos os dias falo contigo, e todos os dias imagino como seria se eu me tivesse despedido de ti, se tu me tivesses visto uma última vez, como seria se ainda estivesses aqui comigo… E cai sempre uma lágrima, mas de seguida esboço um novo sorriso, pois tudo o que guardo de ti são memórias boas. Mas hoje não consigo… É mais forte que eu…
Se soubesses como sinto a tua falta…
Tenho tantas saudades…