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...Memórias de um Sonhador...

* As memórias são como livros escondidos no pó... As lembranças são os sorrisos que queremos rever, devagar... Recordem, e Sonhem - porque "sempre que o Homem sonha, o Mundo pula e avança..." *

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sexta-feira, março 10, 2006

Uma manhã...



... inesquecível …

Pelas 7.15h cheguei à escola, estive à espera que chegasses, e desejei-TE um bom dia. Não há melhor maneira de começar o dia! Depois, despedi-me de TI com um beijo e voltei para os meus apontamentos de fisiologia. Antes fui buscar a bata, lavadinha e passada a ferro, e sentei-me, de folhas na mão, a enganar a ansiedade. Estava em pulgas, e nem o teste de fisiologia me fazia esquecer aquilo que me esperava naquela manhã. Ia visitar a Unidade de Pediatria do Hospital de S. João

Chegaram as 9h, desci até à sala, encontrei a professora S. e lá partimos em direcção ao hospital. A cada degrau que ia descendo sentia o coração a bater mais rápido. Olhava para todo o lado à espera de encontrar algo que anunciasse o “mundo” que aqueles pequeninos têm no hospital. Continuando a caminhada, dei por mim em frente a uma porta grande de vidro e madeira, com um placa azul em cima, que dizia em letras brancas: Pediatria. O meu coração disparou… A porta abriu, entramos, e aguardamos um pouco. Ali tinha apenas a biblioteca da Pediatria e o gabinete de apoio à mesma. Uns desenhos marcados no vidro davam um ar desse mundo pequenino, e era muito bom estar ali. Aberta a outra porta, fui caminhando pelo corredor. Quartos de ambos os lados, muita azáfama nos corredores, e uns bebés lindos que víamos através dos vidros, e que batiam nas janelas e sorriam para os pais e enfermeiros, sem se deixarem afectar pelo motivo pelo qual estavam ali. Desenhos em todas as janelas, bonecos em todas as camas – um mundo de cor, simplicidade e inocência como é o destes pequeninos… Continuei, pois a mim aguardava-me a Pediatria A, dos 2 aos 18 anos. Esperei mais um pouco, e então entrei na Unidade. Vi alguns pequeninos a andarem pelo corredor, de pijama vestido e ainda ensonados. Não sei explicar o que senti… Senti um arrepio enorme, senti que o mundo parou por segundos para eu poder admirar todo aquele espaço, e senti uma súbita vontade de chorar, que foi contida a muito muito custo… mas ainda assim os olhos ficaram a brilhar… Não sei explicar o que senti, mas senti-me tão bem, como se aquele espaço me pertencesse, me fosse familiar, fosse também “meu”… Esperei mais uma vez antes da observação para que a Enfermeira me distribuísse pelo quarto onde iria ficar. Entretanto, olhei pelo vidro da janela e lá estavas tu… O tão famoso G. Estavas de costas, não me viste, mas eu fiquei a admirar o teu corpo pequenino para os teus 8 anos, a tua fragilidade mas, acima de tudo, a tua alegria. Sim, era isso que ressaltava: o teu sorriso aberto e contagiante… De repente voltaste-te, e viste-me… e sorriste-me… Mais uma vez não sei explicar o que senti. Sorri para ti e brincamos bastante. Estavas a chamar-me para ir ter contigo, mas tiveste de esperar um pouco. Tu e eu, e acredito que a mim me tenha custado mais aquele tempo de espera… apenas um vidro nos separava, mas não deixaste de olhar para mim, e continuamos a brincar fazendo com que aquele tempo passasse rápido. Por fim entrei. Fui logo ter contigo, e apaixonei-me pela magia que irradias. És muito especial, o “meninos dos olhos” de tanta e tanta gente naquele serviço… e agora dos meus olhos também… Todos paravam para te dar os bons dias, e tu sorrias com uma boa disposição incrível. Pediste-me uma caneta para fazer um desenho. Fizeste, e vou guardá-lo comigo todos os dias. Depois pediste mais canetas, e pediste a minha, que viste no bolso da bata. Dei-ta e não mais a largaste. Tinha pinguins desenhados, o que ainda deu direito a umas brincadeiras!! Por momentos tive de te deixar, e fui falar com o teu amiguinho de quarto, o N. Também ele era especial, um encanto. Estava a tomar o pequeno-almoço, e depois falamos muito. Aprendi a fazer arroz de cabidela, e muitas outras coisas que me ensinaste. Foi tão bom… Do outro lado, tinha a M. Estava lá desde os 9 meses, tendo agora 2 anos e 11 meses, em estado vegetativo… Eras tão linda minha pequenina… A tua serenidade, a roupa e fita cor-de-rosa que a tua mamã te vestira nesse dia (como já há dois anos faz) faziam de ti uma princesinha linda… Mesmo não olhando para mim, cativaste-me muito. Tu e a tua mamã, a quem desejo a maior força do Mundo…
O tempo foi passando, rápido demais… Aquele mundo era mágico demais, e o tempo voava. Tinha de vir embora. Despedi-me da M., do N. e o G. foi o último. O G. vive no hospital desde que nasceu, e é “filho” de todos quantos passam por ali. Também a mim me cativaste. Não largaste a minha caneta, e eu não tive coragem de ta pedir de volta… Guarda-a, guarda-a bem… pode ser que um dia te lembres de mim quando olhares para ela…

Obrigada a todos… Não imaginam o que ganhei naquela manhã… Aqueles três pequeninos, tão diferentes e tão iguais, são uma amostra daquilo que é lutar por uma felicidade limitada no tempo e no espaço… são uma lição de vida…


* Enquanto escrevo estas linhas todas, as lágrimas teimam em cair e não parar… Sim, lágrimas… Lágrimas de alegria por ter podido viver tudo o que vivi naquela manhã, lágrimas de tristeza por ter de vir embora, lágrimas de medo por não poder, um dia mais tarde, ficar perto de vocês e dar-vos tudo aquilo que tiver… medo de não ser uma boa enfermeira e não vos poder fazer sorrir por mais um dia… Mas sim, tenho a certeza que é ali que quero passar os meus dias. Os meus problemas acabaram quando ali entrei, pois só existiam vocês naquele meu mundo… É ali que quero estar, sei-o com todas as forças, e tenho disso uma certeza como raras tenho na vida…

Obrigada pela melhor manhã da minha vida…

Até sempre, espero eu… *

12 Comments:

Anonymous Anónimo said...

ju... tão lindo, ju...

podia dizer-te um monte de coisas, como eu sei que é ali que vais estar, como eu sei que vais ser fundamental quando lá trabalhares, como eu sei - e tu tambem - que ainda é precisa muita preparação para alcançar esse sonho e como esse sonho está a cada dia que passa um pouquinho mais perto. no entanto, a unica coisa que eu desejo mesmo, mesmo - porque tudo o resto eu tenho a certeza que vai acontecer - é poder, um dia, encontrar-te lá, no meio do teu sonho e partilhar experiências contigo.

beijinhos

sábado, 11 março, 2006  
Blogger Jobim said...

As crianças vivem num nundo à parte, um mundo onde o sofrimento é desconhecido e em que há uma facilidade enorme de sorrir.. talvez por não terem a noção do mal que estão a atravessar por vezes. é por isso que sempre digo "é tão bom ser-se pequenino"

Admiro profundamente a tua sensibilidade infinita.
beijo*

sábado, 11 março, 2006  
Blogger Jasmim said...

Já fiz estágio na pediatria e até hj recordo um menino, pequenino, que quando me via á porta do quarto olhava-m c os olhitos molhados por entre as grandes do berço e me pedia pra brincar (embora as palavras que dizia fossem mt poucas)Ñ m pude despedir dele porque teve alta durante a minha folga ( e ainda bem que foi assim)...e ainda hj o recordo c uma lágrima no olho...

Beijinitos**

sábado, 11 março, 2006  
Blogger Unknown said...

Nem só esses momentos são lindos!
Quem me dera ter a coragem de encarar um Hospital, a coragem de ter um "nariz vermelho" e poder ajudar!
É tão bom ler e chorar.. ler e imaginar... ler e sentir-me pequenino com um sorriso "roubado".
Apenas "foi" um momento lindo da minha vida ler uma manhã maravilhosa.

sábado, 11 março, 2006  
Blogger Acmea said...

Que post tão LINDO!!!!! Que bela forma de descrever momentos que para ti devem ter sido tão importantes. ;)

domingo, 12 março, 2006  
Anonymous Anónimo said...

pois e sou msmo eu resolvi começar a comentar os blogs num comentario geral ta giro (sou limitado pa adjectivos ms gostei) e vrdd vi o teu calendário das frequencias e a foto 1 frase pertinente "o trabalho degrada a mente" (Aristoteles) beijo grande
IMACULADA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

domingo, 12 março, 2006  
Blogger Nuno Costa said...

Conheço muito bem esta tua sensibilidade, até já a presenciei e é... linda! E espero que um dia possas trabalhar num serviço com esses pequeninos. A obstetricia é o local perfeito!

Beiju* enorme*

domingo, 12 março, 2006  
Blogger Lau* said...

E um texto mais gránde, nao?????!!!!!!!!!!!!!

terça-feira, 14 março, 2006  
Blogger Jasmim said...

Só pra t dizer k m lembro d ti várias vezes...axo k ias gostar d fazer o meu trabalho d investigação, que diga-se d passagem m dá um trabalhão!!! Dás-m uma ajudinha??? preciso d uma fã de pediatria =)

quarta-feira, 15 março, 2006  
Blogger *Ana* said...

Os pequeninos..sao deveras o que de melhor temos neste mundo..Sensiveis, frageis, rebeldes, simpaticos, sonhadores..enfim..crianças! Eles e o mundo deles tornam o nosso muito mais especial e encantador..

***Lindo post..dorei muitíssimo***

bjokas grandes pa tuuu!!!

sábado, 18 março, 2006  
Blogger moon between golden stars said...

Olha Ju... deixa-me apenas dizer-te que trabalho com pessoas tão ou mais especiais que esses anjos que encontraste.. e é bem tramado o facto de não conseguir-mos afastar-nos emocionalmente das pessoas com quem trabalhamos, inevitavelmente... e digo-te também, por experiencia própria que não vale a pena evitarmos isso...

Um abraço grande

domingo, 19 março, 2006  
Anonymous Anónimo said...

oi lindinha..passei por aki pa t dar os parabens plo blog..ta mt bonito!
pa t agradecer por seres a pexoa k es..amiga e simpatica cm sp..;) continua axim lindinha..bgd por td..bju gand

domingo, 19 março, 2006  

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